sábado, 13 de dezembro de 2008

DISCURSO DE FIM DE CURSO – C-PEM/2008

Estamos em 25 de fevereiro.
Convido as senhoras e os senhores para uma breve viagem no tempo.
No entanto, depois de tantos estudos prospectivos, não me refiro a um cenário no futuro, mas sim a fevereiro deste ano, 2008, que ora chega ao seu crepúsculo vespertino.
Mas, como dizia, voltamos uns meses no tempo e são 25 de fevereiro de 2008. É hora de nos concentrarmos na Escola de Guerra Naval para o desafiante, extenuante e mesmo, temeroso, Curso de Política e Estratégia Marítimas (tais eram os sentimentos que nos acercavam, à época). A fama do C-PEM, que transcende as fronteiras da Marinha, é de ser um curso de elevado nível de exigência; muito trabalhoso. Todavia, regressar aos bancos escolares nos transporta a uma fase gostosa da vida – a infância. Por mais idade que tenhamos, voltamos a ser simplesmente – alunos.
As expectativas a respeito do curso são grandes. Um misto de ansiedade, esperança, alegria de encontrar velhos companheiros e apreensão com os novos desafios. – Dizem que o MBA é muito bom, mas muito puxado! – Já não somos jovens aspirantes, não temos mais paciência para tantas aulas. – E as próximas comissões? Aonde será que estaremos a esta altura do próximo ano? Esses são alguns dos comentários de corredor.
Voltar à Escola, para a maioria, é prazenteiro. Por outro lado, o receio do desconhecido preenche aqueles que nela nunca estiveram. A mistura de Oficiais-Alunos dos diferentes Corpos e Quadros, das Forças-irmãs, além de um Servidor Civil, nos faz lembrar da miscigenação que caracteriza o povo brasileiro. Gente de diversas origens com diferentes experiências e pensamentos distintos, reunidas no mesmo espaço com os mesmos propósitos. Esse é o ambiente que permeia o início do C-PEM/2008.
Iniciam-se as aulas. Começam os trabalhos. Parafraseando um colega missivista, Comandante Álvaro – “Será mesmo o conflito inevitável?” Personagens como Tucídides, Platão, Hobbes, Locke, Rousseau, Kant, Clauzevitz e tantos outros, passam a figurar em nossos dia-a-dia como velhos amigos. A Paz de Westfália e o novo sistema internacional, o surgimento de conceitos como os de Estado-Nação e soberania, as principais guerras, o direito internacional, as relações econômicas entre os Estados, a gestão de empresas e as crises, são algumas das diversas questões que passam a compor o quadro de pensamentos que nos acompanha e, por vezes, até mesmo a noite, no travesseiro.
O contato com o mundo extra-muros apresentado pelo MBA em Gestão Internacional, da COPPEAD-UFRJ, nos insere num ambiente acadêmico ainda não experimentado pela maioria. Renomados Mestres e Doutores nos brindam com novos conhecimentos e nos abrem as janelas para um mundo real e dinâmico, que nos influencia constantemente.
A despeito de sermos todos militares, salvo o nosso caro Professor, somos todos de natureza disciplinada, e aí o incluo. Contudo, sofremos com a execução da monografia, levada a cabo com os mesmos rigores de uma tese, à luz da disciplina da metodologia científica, que nos desafia. As aulas do MBA prosseguem concomitantes com os trabalhos do MBA, numa dinâmica acelerada. Assuntos sempre interessantes que exigem uma dedicação exclusiva e, por vezes, exaustiva. E a monografia prossegue...
Mas temos o privilégio de poder contar com a Dona Jurema, carinhosamente chamada pela Turma de Dª Ju, que, com seus cafés, chás e outros mimos nos alenta e incentiva a prosseguir.
O semestre vai avançando e logo na primeira viagem de estudos percebe-se algo peculiar: o entrosamento da Turma. Tendo em conta ser um grupo tão heterogêneo (digo, para os parâmetros navais), composto por Oficiais CA, FN e IM oriundos de três turmas distintas da Escola Naval; Oficiais Md e EN; Oficiais convidados do EB e da FAB; um SC; em caráter inédito, a primeira Oficial do Quadro Feminino da Marinha, CMG (Md) Cristina Costa; e o primeiro Oficial do Quadro Técnico, CMG Landin; a mistura mostrou-se muito bem sucedida. O resultado foi uma relação entre os pares baseada no respeito profissional, na cordialidade e na camaradagem. Digno de menção foi o entrosamento alcançado pelos coronéis das Forças-irmãs, nominados na intimidade da Turma de Coronéis de Mar-e-Guerra, Hudson e Freire, do EB e, Barbedo, da FAB, o que expressa nosso apreço. A prevalência da renúncia aos anseios individuais em prol do bem coletivo criou uma coesão fundamental para a singradura segura, mantendo o barco sempre no rumo planejado. A Turma, unida, suavizou as aflições pessoais e tornou mais fácil e prazerosa a nossa jornada conjunta.
Por dever de justiça, há que se reconhecer que boa parte dessa coesão deve-se ao nosso xerife, a quem chamamos apropriadamente de Farol, o iluminado CMG Garnier, merecedor de menção elogiosa, posto que o comportamento de qualquer grupo social sejam instituições, Estados ou grupos menores, sofre influência significativa do seu líder.
Prosseguindo na viagem, chega o mês de agosto, momento crucial do curso. O barco, digo, a Turma enfrenta mares revoltos com a entrega da monografia entremeada com os trabalhos do término do MBA e os preparativos para as viagens de estudo que se acercam. Um misto de sentimentos representados por traços extenuantes, decorrentes da empreitada cansativa, e nostálgicos, pela despedida do convívio semanal com os nossos tão caros professores da COPPEAD.
Todavia, desafios ainda nos aguardam. O vigia do tijupá nos alerta – Vem aí o Estudo de Estado-Maior! Estudo que culmina com uma apresentação ao Almirantado. E prossegue o C-PEM com seus esforços na busca de emprestar à Marinha, o que ele tem de melhor: as idéias de seus alunos para a solução dos problemas propostos pelo EMA. Mais uma vez a turma se faz presente. O apoio mútuo e o incentivo entre os grupos foram marcantes. Finalmente, entre idas e vindas, acertos e ajustes, para o bem daqueles que combatem o “bom combate”, essa outra etapa foi vencida, com alguma adrenalina, confesso. Mas, me parece, conseguimos arrancar alguns elogios da nobre platéia.
Aproxima-se o fim da viagem. Toma lugar o planejamento de uma Força Naval para o Brasil e o exercício do seu emprego numa manobra de crise, trabalho que busca congregar todos os conhecimentos obtidos ao longo do curso. Nessa fase o barco parece navegar com mais suavidade. Já se vê terra boiar no horizonte.
É hora de atracar, de revoada para as aeronaves embarcadas, regressar ao porto seguro depois de uma longa jornada que foi o C-PEM/2008. Estamos de volta ao tempo presente, que, neste caso, não é um sitio de especialistas em geopolítica contemporânea, mas sim o momento atual, que é de agradecimentos e despedidas.
Haja vista alunos que somos, não lograríamos completar sozinhos essa jornada, não fosse a ampla contribuição que tivemos. Portanto, fui incumbido pela Turma de expressar os nossos sentimentos de gratidão.
À Marinha, instituição que, ao abraçarmos a carreira naval, nos acolheu e nos emprestou grande parte daquilo que hoje somos.
Às autoridades navais e seus órgãos representativos, das quais cito, em particular, o Comandante da Marinha e o Chefe do Estado-Maior da Armada.
Às demais autoridades que contribuíram com palestras e conferências proferidas e com orientações que emanam de suas instituições e da Alta Administração Naval.
Ao Diretor da EGN, CA Walter Carrara Loureiro, nosso líder mor, que nos proporcionou, por meio da condução da Escola, um ano letivo profícuo e agradável.
Ao CDE – Alte Reis, ao Encarregado do C-PEM – CMG Cláudio, aos nossos instrutores do Corpo Docente, bem como à Administração da EGN – Oficiais, Praças e SC, o nosso muito obrigado.
Aos nossos amigos da COPPEAD-UFRJ, professores e administradores, que tornaram possível a realização do MBA em Gestão Internacional, distinguido por todos como um dos pontos altos do curso, o nosso reconhecimento.
Aos palestrantes e conferencistas, aos amigos e companheiros que nos guiaram os passos, os nossos sinceros agradecimentos.
Aos nossos familiares que, com seus carinho e compreensão nos apoiaram e nos incentivaram ao longo dessa jornada, a nossa eterna gratidão.
São características das grandes instituições a sabedoria, a tradição e a perenidade. A Marinha, por meio de uma espécie de simbiose de seus integrantes, nos proporciona um período de reflexão e absorção de conhecimentos, numa fase ideal da vida, marcada pela combinação da idade com a maturidade. Ela é, ao mesmo tempo, a promotora e a grande vencedora, que colherá os melhores frutos das árvores aqui plantadas. A Turma está de parabéns pela formatura, mas a grande homenageada desta data é a Marinha.
Pensamos que o C-PEM/2008 tenha atingido seu propósito. Levamos daqui uma boa noção geopolítica do contexto mundial e de como o Brasil nele se insere. Adquirimos uma visão da dimensão da Marinha e do quanto é preciso avançar. Mais do que isso, aprendemos que os homens e mulheres da Marinha devem buscar o equilíbrio, que passa pela abnegação, pelo compromisso e pela dedicação profissional, mas também passa pela saúde, felicidade, bem estar familiar e realização profissional. Serão esses profissionais, equilibrados, que comporão o pessoal necessário à boa condução da nossa cara instituição. Resumindo em uma expressão cotidiana, “saímos melhores do que entramos”, disso, estamos certos.
Como escreveu um colega nosso, o Comandante Romilton, talvez inspirado em Vinicius de Morais, “as amizades reconhecidas no C-PEM/2008 nortearam o nosso convívio e desse convívio foi construída a nossa Turma”. As amizades e a Turma são, sem dúvida, a nossa maior recompensa.
Faço pela última vez o uso da palavra que me foi outorgado, para apresentar as nossas despedidas àqueles que conosco participaram do C-PEM/2008. Sim, participaram, pois participar é conviver, é tomar parte, é ajudar, é conduzir, é construir junto, é orientar, é conceder, é motivar. Sim, participaram, pois sem eles não teríamos concluindo com êxito a nossa jornada.
A todos os senhores e as senhoras, aqui presentes ou citados, a todos aqueles que de alguma forma participaram conosco do C-PEM/2008, expressamos, saudosos, as nossas despedidas e confirmamos a nossa gratidão com uma breve palavra da língua portuguesa, mas de grande significado:
– VALEU!

Um comentário:

  1. O John Locke mandou essa do Tamandaré:
    “Sou marinheiro e outra coisa não quero ser”
    Muito cabotino o Tamandaré uma vez que ele disse isso quando era MN.

    Mallman, ficou mal prá gente a foto do mastro. Dois gaúchos com um mastro no meio não pega bem!

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